Comemoro um momento de recuperação. Volto a pensar com as mãos. Já está ficando para trás o momento difícil em que parecia que nada seria como antes. De fato, não será. Será diferente, graças a minhas mãos.
Passei ilesa por todas as crises de idade. Ilesa, não. Provavelmente tão ocupada que nunca percebi. Uma, outra e outra vez passei por piripaques (burnouts) bem sérios, reajustei curso e segui em frente. Da última vez, foi tão acachapante que tive tempo não só de perceber, como de entender todos os mecanismos envolvidos, para resolvê-los finalmente.
Daí, uma crise de idade e um piripaque tiveram um lado bom. Fui capaz de rever, reavaliar e não simplesmente reajustar meu curso sem questionar o destino e o próprio percurso. Onde as mãos entram nessa história?
Mãos, fisicalidade, materialidade são aspectos importantes no renascimento do trabalho artesanal. Muitos estudiosos passaram a se debruçar sobre as consequências da separação entre pensar e fazer que se instalou em nossa cultura séculos atrás de forma estruturante. Há quem relacione esse afastamento até com a crise desse capitalismo tardio que, vamos combinar, agoniza, mas não morre.
Numa perspectiva mais pessoal, no meio disso tudo, percebi que me perdi em dois momentos bem distintos. Em ambos deixei de ouvir o que minhas mãos informavam.
Quando resolvi voltar a estudar e fiz um doutorado, simplifiquei enormemente o que fazia por causa do tempo. Por um lado, eu não tinha o luxo de não trabalhar e, por outro, felizmente, tinha uma clientela que seguia demandando minha produção. Havia investido anos na construção dessa clientela e sabia que não poderia jogar tudo para cima. Reconstruir do zero em tempos de redes sociais seria enormemente trabalhoso. Assim, as peças se tornaram mais simples, embora o trabalho constante tenha melhorado o acabamento e a qualidade. Um bocado da ousadia das criações ficou para trás.
O outro momento foi o do piripaque. Tem gente que não acha certo ficar falando publicamente de coisas ruins. Eu acredito que se alguém não chegar no seu limite porque soube o que aconteceu comigo, eu já cumpri meu papel.
Empreender não é fácil. Fazer joias também não. As redes sociais criaram um mundo de fantasia onde parece que ninguém trabalha duro. Todo mundo está na vida a passeio. E todos registram os passeios. Os vídeos ultra editados que mostram em 30, 60 ou 90 segundos a criação de uma joia na bancada fazem parte das tais provas de autoridade, provas de autoria, cenas de bastidores e construção de glamour. Na verdade, há soldas que dão errado, gemas que se quebram, machucados nas mãos, calor demais e prazos apertados. Quando foi que inventaram que parecer fácil, banal mesmo, acrescentaria valor à joia? Até aí tudo bem, escolhi ser joalheira.
Só que, além disso, há pessoas extremamente indelicadas, perguntas absurdas que revelam o desprezo pelo seu trabalho, gente que descarrega suas frustrações em você sem aviso prévio. Daria para escrever uma obra em dois volumes: um com todas as histórias de respeito, interesse e valorização do meu trabalho e do meu tempo e um outro – chocante – com tudo que já ouvi de pessoas variadas, inclusive cliente e amigos. Formas de agressão mais sutis porém não menos violentas. Houve quem me perguntasse o porquê do burnout, se eu larguei o mundo corporativo para fazer o que gosto. Obrigada a todo coach de ficção científica, digo, de vida e carreira, que ensinou que “faça o que você ama e não trabalhe um dia em sua vida”. Quando é que vamos começar a discutir a falácia da produtividade infinita? Ainda mais em tempos de precarização do trabalho?
Cheguei a trabalhar 18 horas por dia durante muito tempo. Quem empreende fica sempre achando que não pode recusar nenhum trabalho porque afinal de contas a única garantia são os altos e baixos de demanda. Não foi só por isso. Eu adoro trabalhar. Adoro fazer joias e dar aulas e tudo mais que está envolvido nisso.
A pandemia nos jogou num mundo inteiramente virtual. Toda a produção de conteúdo e troca de ideias com gente de todas as partes se tornou disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana. Deitei e rolei. Cheguei a ter mais de uma tela na minha frente simultaneamente. Somado a isso tudo, tivemos o surgimento dessa vida balizada pelas redes sociais, as comparação a que consciente ou inconscientemente nos submetemos e as infinitas horas perdidas nos dopando no rolar do feed interminável.
Meu cérebro fritou. Foram alguns dias sem conseguir falar direito. Foram anos sem conseguir ler. No início, nem uma mensagem de whatsapp era compreensível. Lia várias vezes para ver se tinha entendido e, às vezes, não entendia mesmo. Livros, que devoro desde a infância e nessa época estava lendo num ritmo de quatro ou cinco por semana, nem pensar. Ninguém sabia se meu cérebro voltaria a funcionar como antes. Creio que não voltou ou voltou diferente.
Daqui a 30 dias, essa história completa quatro anos. Sim, quatro. O resto da ousadia nos meus processos criativos foi para o espaço.
Como alguém pode se sentir seguro se nem sabe se está entendendo direito o que acontece ao redor? Eu sempre fui craque em ler pessoas, ler sinais, ler tendências, ler as palavras e ler o mundo. De repente, tudo se tornou apavorante. Perdi a confiança na minha capacidade de produzir e na minha capacidade de ser autêntica.
Agora, quando finalmente me sinto recuperada, reconheço que nada será como antes porque não dá. Não dá para trabalhar o tempo todo. Não dá para querer agradar e atender todo mundo o tempo todo.
O que dá para fazer é criar novas formas de estar no mundo, sempre com joias e ideias. Volto ao formato do blog, porque aqui só vem quem quer e não existem algoritmos determinando minha velocidade ou o que é o meu sucesso. Isso e também o fato de que já é quase vintage ser blogueira. Nostalgia está na moda.
Muita joias vêm por aí, feitas do jeito que eu gosto e quero. Elas serão feitas para as pessoas se sentirem mais confortáveis, bonitas, confiantes, alegres e contentes. Assim como eu estou me sentido agora.





