E o ouro, heim? Na terça-feira, 8 de outubro de 2025, o ouro bateu o valor de 4 mil dólares por onça troy. Essa é uma medida muito estranha e usada para metais, que equivale à 1/16 da libra ou 31,10 g. Então estamos falando de R$ 699 por grama, em algum momento desse dia. Bem quando faltavam 78 dias para o Natal! Eu sou dessas que faz contagem regressiva.
Um parêntesis sobre ounce troy: vai saber como traduziram isso, que é um termo que vem da Idade Média, para uma medida criada no comércio na região onde é hoje a Inglaterra, mas que está relacionado com a cidade francesa de Troyes. Calma aí! Não é hora de enveredar pela história. Quer dizer, só se for a minha.
Não é que isso aconteceu no dia seguinte do aniversário de criação do ateliê. Essa é uma data meio arbitrária, porque o ateliê já existia, mas foi o dia em que tirei a rede de proteção, assinando minha demissão do mundo corporativo. Nesse dia, 07 de outubro de 2008, o ouro valia R$ 63,53.
Não sei porque nunca esqueci esse valor. Aliás, sei sim. O valor estava explodindo, porque joguei tudo para cima quando o mundo estava convulsionando em meio à crise financeira de 2008. Há livros, filmes e documentários sobre esses dias. O mais famosos é o Grande demais para quebrar, de 2011, que é cheio de grandes atuações.
Voltando ao que interessa. Rompemos uma linha inimaginável há um ano atrás. Em 16 de setembro de 2008, foi a barreira dos mil dólares. 12 anos depois, em agosto de 2020, foi a dos 2 mil dólares. Pandemia, lembram? Mais 5 anos, em 14 de março de 2025, foi a vez dos 3 mil dólares, por conta da aproximação do Liberation Day do cara cor de abóbora com suas tarifas para todo o planeta. No mercado joalheiro internacional, todos apostavam que não ia piorar muito. Sempre dá para piorar.
Hoje temos duas guerras, inflação e incerteza generalizada. Para onde corre o dinheiro? Para aquele negócio amarelo de brilho intenso que tem valor em qualquer lugar do mundo.
Uns 42% do ouro em uso no planeta vai para o setor joalheiro, mas sempre levamos a culpa de tudo ruim que acontece. Tolinhos. O vil metal é usado também para constituição de reservas nacionais (+/- 25%), investimentos pessoais (outros tantos) e tecnologia (o restante, que dá uns 7%, divididos entre eletrônicos, fins médicos e odontológicos e etcetera e outros que tais). Ele não só é bonito, resistente e maleável, mas é um excelente condutor de calor e eletricidade, de altíssima resistência à corrosão, que pode ser usado e reusado infinitamente sem perder suas propriedade físico-químicas.
Tenho a sensação que ele também apazigua nosso imaginário, sempre cheio de medos e inseguranças. Como reserva de valor e investimento, ele faz maravilhas.
O Padrão Ouro vinculava o valor de uma moeda nacional às reservas de ouro até o período Entreguerras. Ele tinha com uma de suas funções controlar emissão de moeda e, com isso, processos inflacionários. O Acordo de Bretton Woods, do final da Segunda Guerra, sinalizou a importância conquistada pelos Estados Unidos e vinculou o dólar ao ouro em transações cambiais entre os países, mas morreu em 1971. História econômica era um tema na minha casa.
Baita encrenca em que nos encontramos, nada mais justo que lembrarem do ouro como um porto mais que seguro. Investidores comprando alucinadamente, China e Rússia aumentando suas reservas de forma inédita, de olho nos movimentos convulsivos da economia americana.
Vai cair? Provavelmente. Voltará a patamares razoáveis? Certamente não. E olha que nem entrei pela vereda do extrativismo mineral e suas consequências. (mais um assunto anotado aqui.) Levo mais de 20 anos utilizando ouro de joias de famílias em meu trabalho. Continuo achando seu brilho e maleabilidade indescritíveis, mas é hora de dar um tempo. Esse ano o Natal e o Ano Novo serão prateados.
Não, péra. O valor da prata também explodiu, mas essa é outra história. No ritmo em que vamos, um aperto na demanda vai fazer aumentar a platina, o paládio, o ródio e até o latão, o cobre e o bronze. Business as usual para uma joalheira.

